sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Quando você descobre que tem uma nova companhia

     Aos vinte e um anos parecia que tudo estava se encaminhando muito bem na minha vida. Estava prestes a me formar na faculdade, havia conhecido meu primeiro namorado, mas eis que um dia nós dois conversando sobre as tais DSTs surge a ideia de fazermos um exame.
     Inventamos de fazer o tal exame de HIV pelo plano de saúde. As pessoas criticam muito os serviços públicos de saúde, porém há algo que os prestadores de serviços privados precisam aprender, tratar as pessoas com humanidade. No dia em que fui pegar o resultado do exame a moça simplesmente me entregou o envelope e pronto. Dirigi-me imediatamente ao consultório do médico que havia requisitado o exame, um senhor de seus sessenta anos. Não consegui esperar a chegada ao consultório, ainda no elevador abri o tal envelope e lá estava escrito: positivo. Na hora eu fiquei meio que anestesiado, sem saber até no que pensar. Ao contrário do que acontece nestes momentos em que mil coisas passam pela cabeça da gente naquele momento nada passava pela minha cabeça.
     Ao entrar no consultório entreguei o exame para o doutor e não esqueço até hoje o que o médico me disse: pois é filho, deu positivo, já tive vários pacientes com esse resultado, se tratam e ficam bem bons, alguns hoje são meus amigos.
     Consegui apenas agradecer ao doutor e ele escreveu uma carta ao serviço de saúde me encaminhando para os devidos procedimentos. Sai com um aperto no coração. Nunca o trajeto do centro da cidade até a casa de meu namorado que tem apenas sete quilômetros pareceu levar tanto tempo para ser percorrido e na minha cabeça novamente nada.
     Ao chegar em casa lógico que ele queria saber o resultado, eu só consegui sentar e chorar, chorar e chorar.
     Naquele momento parecia que um juiz me havia lido uma sentença de morte, afinal é assim que muitas pessoas ainda encaram a doença, como uma sentença de que você tem pouco tempo de vida.
     Depois de uma semana consegui juntar forças para me apresentar no serviço de saúde onde fui muito bem recebido pelas profissionais de enfermagem e pelo médico.
     Ao longo desses seis anos tenho tentado entender como alguém que é instruído e que sabia muito bem o que deveria fazer deixou-se levar pelo instante de prazer e não se cuidou. Ainda não consegui entender mas tenho procurado conviver bem com o meu companheiro.
     Assim tenho procurado encarar o vírus que minhas células hospedam, como uma companheiro. Depois de algum tempo não aceitei mais a sentença de morte que alguns passaram a me quando descobriam minha condição sorológica.
     Ainda não consegui assumir a frase da advogada gaúcha Beatriz Pacheco:

"Não assumam a marginalidade que a sociedade quer lhes impor".
     Tenho tentado, mas tenho avançado muito pouco e isso é restrito apenas a alguns amigos e meu namorado que nem é mais aquele de quando recebi o resultado, mas isso já é uma outra história.

Arthur



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