Aquela sexta-feira
Era para
ser uma sexta-feira como tantas outras, aquela expectativa do final de semana
em que poderia descansar, namorar e não me preocupar com as coisas da vida.
Aquela
sexta-feira não me sai da cabeça. Retirei o exame no laboratório e estava a
caminho do consultório médico, havia feito um propósito de não abri-lo antes do
doutor, mas a agonia já durava dias, a sensação de carregar um piano era
horrível.
No elevador
abri o exame e de repente já não carregava mais o piano, o piano desabou em
minha cabeça, o resultado era: positivo.
Mil coisas
vieram à cabeça entre a subida do elevador e o consultório do médico: como
seria meu namoro dali para frente? Será que eu ficaria magérrimo como
comentavam as vizinhas a respeito do filho da dona Maria, que diziam estava com
AIDS e já pesava vinte quilos? Será que eu iria durar mais dez anos? Sim acho
que meu prazo de validade estava determinado ali, afinal nos jornais e revistas
que eu havia lido falavam que um paciente com HIV/AIDS dura aproximadamente dez
anos, parecia que ali, naquele pedaço de papel de um laboratório, estava um
juiz a ler minha sentença de morte.
Meu namorado depois me disse que
também tinha medo de continuar se envolvendo comigo, afinal meu tempo de vida
seria pouco dali para frente, isso ele havia lido num desses jornais quando
estávamos apenas desconfiados, quando o piano estava apenas sobre meus ombros e
não destroçado em cima de minha cabeça.
Tantas dúvidas pairavam sobre a
dita doença que eu não conseguia nem dizer o nome, tentei me informar da melhor
maneira possível, lendo jornais, revistas, pesquisando na internet, mas chegou
um momento em que desisti, pois todo aquele material reservava para mim um
futuro sombrio, era tudo aterrador.
Eu poderia escolher continuar
dando atenção a tudo aquilo ou a partir de meu diagnóstico dar um novo sentido
à vida. Acho que escolhi a segunda opção, talvez um pouco mais difícil, mas com
certeza a melhor opção.